O Facebook ganhou espaço para histórias de personagens considerados invisíveis na sociedade. A ideia, segundo um dos fundadores do projeto "CG Invisível", João Vinicius de Abreu, “é trazer visibilidade as pessoas que são tratadas com indiferença e resgatar o seu valor”. Em três meses a página somou mais de duas mil "curtidas".
O projeto, que também ocorre em Curitiba, Fortaleza, Rio de Janeiro e Salvador, surgiu no estado de São Paulo como “SP Invisível”, que aborda histórias de moradores e artistas de rua, catadores de lixo, entre outros personagens. Em Campo Grande, a ideia foi desenvolvida por Abreu e mais dois amigos, Rafael Carillho e Fernanda Witwytzky. “Nós já tínhamos um envolvimento com esse lado social na igreja. Então descobrimos que havia esse projeto em São Paulo, conversamos com pessoal de lá e nos cederam o nome com total autonomia para tocar o projeto aqui, sem determinar nenhum padrão”.
As histórias são apresentadas por fotos seguidas de um texto, que segundo Abreu, é “transcrito da forma que foi contada pelo personagem”, inclui gírias e detalhes que definem a sua personalidade. A abordagem é feita de forma cautelosa, pois muitos se intimidam. “Muitos deles tem repulsa, alguns não querem se relacionar, por isso é necessário ter um contato certo. No fundo eles gostam, só tem uma 'camada', um receio, por cima.” Na hora da aproximação se apresentam como fotógrafos, e a afinidade é conquistada “pelo fato de estar mais interessado na história, do que na matéria que vai sair”.
Toda narrativa é retirada do cotidiano, como esclarece Abreu, "é aquilo que vemos no dia a dia, andando na rua, indo para o trabalho. A partir disso percebemos que tinham outras demandas". O projeto que começou com perfil de moradores de rua, hoje se expandiu. Artistas e catadores de lixo também ganharam espaço no cenário. Segundo o antropólogo Gustavo Vilela, as relações de classe são responsáveis por colocar pessoas nessa situação de invisibilidade.
O resultado se concentra nas redes sociais, Facebook e Instagram e tem resposta dos leitores. “Diversas pessoas entram em contato com a gente por Inbox, querendo contribuir. Algumas perguntam se nós não vamos ajudar, mas essa não é a ideia principal do projeto, nós apenas divulgamos as histórias. Estamos tentando contribuir para que o indivíduo seja um pouco mais humano, parar a correria do dia a dia e ver isso. E conseguimos enxergar no Facebook essa plataforma.”
Como é o caso do italiano Zappatta apaixonado por música. Sua história foi compartilhada e conquistou alguns leitores. Um deles, uma menina, que entrou em contato e decidiu doar um violão para que continuasse com suas composições.
“Meu nome é Zappatta Malagutt e tô no mundo aí procurando oportunidade de música. Sou músico e compositor, já fiz 173 musicas. Sou italiano, nascido na Sicília e faz vinte anos que vim para o Brasil. Vim a trabalho com meu pai, minha mãe pra trabalhar em lavoura de café e uva. Um dia acabei me metendo em um assalto e fiquei preso 14 anos, oito meses, vinte dias e duas horas. Na cadeia eu fazia música. Fiquei preso e perdi minha esposa, fiquei distante da minha filha e pra não fazer besteira com ela também, eu preferi andar no mundo. Um dia consegui um carrinho pra mim catar, daí o patrão gostou do meu serviço e hoje eu tomo conta de todo o depósito e eu durmo aqui. A noite eu pego o carrinho e vou catar no centro. As pessoas não valorizam a gente na rua catando, tem muita gente que acha que somos todos indignos, que vai roubar, sujar e muito pelo contrario, a gente recicla. Nosso serviço é tirar lixo da rua. Tô vivendo uma vida digna, tranquila, com saudade da minha bambina. Mas o que eu gostaria mesmo é de levar a minha cultura, minha música em diante, comprar um violão pra mim. Escrevo muita musica brasileira. Um conselho pros jovens é que estudem, e sai fora de trapalhada, de droga, não faça o que eu fiz no passado, porque a gente se suja no passado e agrava no futuro. O futuro de droga é só a morte.”