A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, EFNOB, completará 100 anos em Campo Grande em outubro. Em comemoração a data, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, IHGMS realizou o 9º Seminário de Desenvolvimento Institucional, SEDIMS que acontece uma vez por ano e que tem o objetivo de preservar a memória da ferrovia no estado.
De acordo com a diretora do Instituto, Vera Tylde “o seminário têm estes temas para que a população conheça seu Estado”. Uma das palestrantes do seminário foi a historiadora Madalena Greco, que ressaltou a importância da ferrovia para a memória campo-grandense. Para a historiadora, a ocupação humana proporcionada pela ferrovia foi a finalidade principal da vinda dos trilhos para Campo Grande. “Em outros lugares, a ferrovia era instalada em função de um crescimento. No Centro-Oeste os trilhos vêm para trazer uma grande ocupação humana”. Com a chegada da EFNOB no Estado, povoamentos como Miranda se transformaram em cidades.
História da EFNOB
A Ferrovia Noroeste do Brasil, NOB, de acordo com a historiadora sul-mato-grossense, Alisolete Weingartner começou a ser planejada em 1904, após o governo brasileiro querer aumentar a participação do antigo estado de Mato Grosso na economia federal. O Brasil encontrava-se no pós-Guerra do Paraguai e a proteção territorial da nação foi essencial.
A construção da ferrovia começou em 1906, com a decisão do trajeto pelo Escritório de Engenharia do Rio de Janeiro. Conforme explica Alisolete Weingartner, “à época, 31 projetos foram apresentados para começar a conexão entre os Estados do noroeste brasileiro, sendo que 25 destes concluíram no atual Mato Grosso do Sul”. A princípio, os trilhos não viriam para Campo Grande. O projeto foi alterado conforme a construção acontecia.
De acordo com Weingartner, “o trem trouxe o sistema capitalista para Campo Grande”, que era, até então, “uma vila de tropeiros, com cerca de 900 habitantes”. Moradora da cidade por toda a vida, para a historiadora, a importância da ferrovia no Estado ultrapassa a questão do desenvolvimento, “o trem não é só a máquina, ele tráz lembranças e saudades dos que vão e dos que ficam”.
Um exemplo desta relação afetiva dos moradores com os trilhos é vista na história da compositora campo-grandense Lenilde Ramos, que afirma “quase ter nascido dentro do trem”. O pai da compositora trabalhava em ferrovias em São Paulo e, ao ser transferido para a "Noroeste", no Mato Grosso do Sul, conheceu a futura esposa. Todos na família de Lenilde Ramos, por parte da mãe, tinham vínculos com a NOB, “meus tios trabalhavam onde é o armazém cultural agora, que antes era onde ficava as oficinas das máquinas, e minhas tias eram casadas com ferroviários também”.
Lenilde Ramos morou em Aquidauana e, mesmo nessa cidade, sua ligação com a ferrovia continuou. “Minha casa era dentro da estação de trem. Meus parentes estão esparramados ao longo dos trilhos da Noroeste, desde Três Lagoas até Corumbá, que moram dentro ou no entorno das estações”.
A mudança na utilização da NOB com a privatização, Lenilde Ramos é enfática, “considero um genocídio, assim como o dos indígenas. A ferrovia foi vitima de um atentado, um assassinato. Se meu pai fosse vivo, ele teria um ataque por ver o que se transformou a Noroeste hoje”.