Neste ano, o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) completa 25 anos de existência. A data foi tema da Semana de Jornalismo (Semajor) 2014, que reuniu autoridades, professores e ex-alunos. Foram mais de 700 profissionais formados ao longo do período. O jornalista, Doutor em Comunicação pela Universidad Autônoma de Barcelona e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso do Sul (Sinjor/MS), Edson Silva foi um dos responsáveis pela criação do curso na UFMS. Em entrevista ao Primeira Notícia, ele falou sobre os eventos que antecederam a criação do curso, os fatos mais marcantes, o legado para a sociedade sul-mato-grossense, e os desafios para os próximos anos.
Porque o senhor resolveu participar da luta em prol da criação do curso?
Em 1984, com a chegada da carta sindical – pois até então apenas existia a Associação dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul – houve uma mobilização para constituir a primeira diretoria do Sindicato do Jornalistas de Mato Grosso do Sul (Sindjor/MS). Eu fazia parte de um grupo de novos jornalistas, recém chegados à Campo Grande, e nós entediamos que deveríamos nos organizar para promover ações em prol da categoria. Foi então que criamos uma chapa, mas isto bateu de frente com os profissionais que já estavam aqui. Com o tempo e muito debate, os profissionais se reuniram em uma única chapa – a “Movimento”. Eleita esta chapa, fizemos uma grande assembleia em que elegemos cinco prioridades de atuação. Umas delas incluía a criação do Curso de Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Uma comissão foi montada justamente para trabalhar neste eixo.
E como aconteceu a criação do curso em si?
Eleitas as prioridades e constituída cada comissão, foi elaborado um documento que fundamentava a criação do curso. Fizemos todo um estudo que mostrava quantos jornalistas haviam no mercado de trabalho, quantos eram filiados no Sindjor, quantas eram as redações – de jornal, revista, rádio e TV –, ou seja, foi feito um levantamento que comprovasse a demanda pelo curso. Ainda, na região Centro-Oeste apenas Brasília e Goiânia possuíam o curso, então com a criação em Mato Grosso do Sul atenderíamos tanto o nosso estado quanto o estado de Mato Grosso. O documento foi entregue ao reitor da UFMS na época, professor Jair Madureira, e reivindicava a criação do curso na universidade. O reitor fez questão de constituir uma comissão interna na UFMS sobre o assunto. Participavam quatro integrantes, e eu estava incluído, como representante do Sindicato dos Jornalistas. Esta foi a comissão que trabalhou praticamente desde o início para desenhar o curso e fazer o planejamento pedagógico.
Quais foram as dificuldades?
O "trabalho duro" começou na minha gestão do Sindjor e foi até a segunda. O processo todo perdurou cinco anos, de 1984 a 1989, finalmente com a criação do curso. Havia uma certa resistência na UFMS, pela questão orçamentária. Externamente, na política local, havia parlamentares que queriam puxar para si, como uma forma de auto-promoção. Alguns empresários do ramo dificultaram o trabalho do sindicato, e portanto também da criação do curso. E ainda dentro do próprio Sindjor, pois num determinado momento a comissão de criação se auto-dissolveu. Até hoje não sei bem o motivo, mas acredito que por desentendimentos internos. De qualquer forma, eu como presidente do sindicato não fiquei tão preocupado, pois a comissão interna na UFMS que tramitava a criação do curso já tinha sido montada.
O cenário político na época foi um fator de influência?
Os direitos políticos eram bem limitados. Em 1984 foi o ano das Diretas Já, então havia uma grande efervescência política. Os jornalistas cumpriam um papel importante e determinante, considerando que alguns dos grandes veículos de comunicação apoiaram esse movimento. Foi nesta efervescência política que o Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso do Sul surgiu. E imediatamente com a criação do Sindjor, a gente começou a fazer a discussão e o planejamento para a criação do Curso de Jornalismo, por entender que precisávamos de uma qualificação profissional, ou seja, precisávamos trabalhar no sentido de que o mercado já existente – formado pela maioria absoluta de não-jornalistas – fosse melhorado, que o quadro dos trabalhadores tivesse uma capacitação. A saída foi a criação do curso preferencialmente numa universidade pública, e à noite. Lógico que a situação política do momento movia para este sentido.
Qualificação do mercado era o único objetivo para criação do curso?
Não. Capacitar os profissionais que já estavam no mercado era uma forma da categoria ter um controle sobre a produção jornalística e não ficar dependente só dos patrões, até mesmo porque como não havia qualificação, isto fazia com que os chefes manipulassem mais seus empregados. O nível de discussão da categoria era quase zero. Os “profissionais” na realidade eram pessoas contratadas nas empresas jornalísticas que aprendiam trabalho conforme o tempo. Com a chegada do curso, daí sim nós pudemos fazer todo um trabalho da participação dessas pessoas do mercado no próprio curso.
E esse objetivo foi atendido?
A expectativa, o propósito do Sindjor, era qualificar o pessoal que estava trabalhando e obviamente abrir para a formação de novos jornalistas. Mas havia um quadro elevado nas redações de pessoas que não tinham ensino médio completo. Como então fariam vestibular? Além disso, eram pessoas com idade mais elevada, mais velhas, e que não gostariam de se envolver com o curso por estarem trabalhando. Então essa ideia inicial que nós usamos para fundamentar a criação do curso ela acabou não se concretizando totalmente. De qualquer forma, garantimos a graduação dos novos profissionais. Hoje em dia temos a dimensão de 717 jornalistas formados pela casa.
Hoje em dia, com a comemoração dos 25 anos do curso, o que essa história representa?
Hoje temos o entendimento que desenvolvemos um projeto sólido. Você ter uma área de conhecimento trabalhada em uma universidade, durante 25 anos, é a demonstração de que estávamos certos quando fizemos a proposta de criação do curso para a formação de novos profissionais. Para o Curso de Jornalismo, o jubileu de prata significa o cumprimento de uma etapa importante, que comprova a consolidação e a implantação de uma área na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Significa também uma resposta para a sociedade de Campo Grande e do estado de Mato Grosso do Sul, no que diz respeito de se ter a formação de profissionais com um perfil que o mercado de trabalho exige. É a resposta de que o curso atende à sociedade, com relação à informação, aos direitos humanos, às comunidades excluídas, às denúncias, durante todos esses 25 anos.
O jornal laboratório Projétil acompanhou o curso durante os anos. Qual sua importância neste contexto?
E o quê o senhor espera para os próximos 25 anos? Qual o futuro para o Curso de Jornalismo UFMS?