Pesquisadora, doutora em sociologia e professora aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Ana Maria Gomes trabalha há mais de 30 anos com questões relacionadas a direitos da mulher. Nesta entrevista, ela comenta os resultados da pesquisa divulgada pelo IBGE, que levantou a participação das mulheres no mercado de trabalho e nas universidades. Segundo a pesquisa, a presença delas é maior nas áreas de educação (83%) e humanidades e artes (74,2%), as duas com menor renda média: de R$ 1.810,50 e R$ 2.223,90, respectivamente. Já na área de engenharia, produção e construção, que tem rendimento médio de R$ 5.565,10 segundo o Censo 2010, elas são apenas 21,9% das pessoas formadas nessas áreas.
Que fatores justificam esta tendência de as mulheres ocuparem pouco espaço nas carreiras tradicionalmente masculinas?
A primeira coisa que nós temos que ver é que a mulher foi por muito tempo impedida fora de casa. Historicamente, é um pouco assim que se dava, havia cursos em que ela (a mulher) era impedida muitas vezes de fazer e áreas em que não podia trabalhar. Quando a mulher começa a ser aceita, é só naquelas profissões que estão associadas ao ‘papel dela na sociedade’, que é como professora, enfermeira, costureira, nas fábricas de tecido enfim. Mas isso existe até hoje, há essas áreas em que a mulher está mais concentrada, e não por opção consciente dela, mas por tradicionalmente haver essas questões associadas à mulher. Como se o fato dela, por exemplo, ser mãe levasse que ela naturalmente seja uma boa educadora, professora. Na enfermagem também, por ser vista como uma cuidadora, que se encarrega dos idosos, dos filhos. Então a gente vê que isso está muito associado a esse papel tradicional. É verdade que nos últimos tempos, nos últimos anos, nas últimas décadas, a mulher entrou em várias áreas em que ela não era bem aceita. Hoje ela já começa a ter seu espaço, mas isso ainda está muito presente.
O governo tem atuado de forma satisfatória para incentivar as mulheres a seguirem estas carreiras onde são minoria hoje?
Leis nãos adiantam nada se não são acompanhadas de uma mudança cultural. A gente sabe que em determinadas áreas as mulheres não são muito presentes, não adianta, sempre vai haver uma forma das mulheres serem preteridas. Então a mudança principal que deve existir é a mudança cultural. Com relação aos salários mais baixos, a mulher sempre teve o salário mais baixo que o do homem, cerca de 60% o valor do salário do homem na mesma área profissional. Outra questão importante é que a mulher, se entra em uma profissão ‘masculina’, essencialmente masculina, ela é mais cobrada, mais vigiada, vai estar mais vulnerável a preconceitos. Ela sabe que muitos estão olhando para ela e pensando ‘vamos ver se ela dá conta’, então a mulher tem que desdobrar, mostrar que ela é inclusive melhor que o homem para fazer aquele trabalho, porque igual não parece ser suficiente para ela ser respeitada.
Qual o papel e a importância dos movimentos sociais para melhorar as políticas públicas nesta área?
Movimentos sociais, como eu concebo, não são institucionalizados e raramente têm acesso à mídia, a não ser nos momentos de manifestações que trazem uma visibilidade maior. Eu considero esses movimentos fundamentais para a mudança de comportamento quanto a mulher na sociedade, e todas as conquistas que tivemos até hoje se devem a isso. As políticas públicas, em geral, não vêm porque o governante é bonzinho e resolve pensar que as mulheres merecem. Em geral, políticos são pressionados pelos movimentos sociais de determinada área para criar e promover políticas públicas. Isso acontece em relação a mulheres, negros, homossexuais, a todos esses ‘setores’ com menos direitos.