ENTREVISTA

Leis de inclusão da mulher de nada servem sem uma mudança cultural

Socióloga Ana Maria Gomes fala sobre a participação social da mulher

Amanda Amaral e Hannah de Moliner17/11/2014 - 23h48
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Pesquisadora, doutora em sociologia e professora aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Ana Maria Gomes trabalha há mais de 30 anos com questões relacionadas a direitos da mulher. Nesta entrevista, ela comenta os resultados da pesquisa divulgada pelo IBGE, que levantou a participação das mulheres no mercado de trabalho e nas universidades. Segundo a pesquisa, a presença delas é maior nas áreas de educação (83%) e humanidades e artes (74,2%), as duas com menor renda média: de R$ 1.810,50 e R$ 2.223,90, respectivamente. Já na área de engenharia, produção e construção, que tem rendimento médio de R$ 5.565,10 segundo o Censo 2010, elas são apenas 21,9% das pessoas formadas nessas áreas.

 

Que fatores justificam esta tendência de as mulheres ocuparem pouco espaço nas carreiras tradicionalmente masculinas?

A primeira coisa que nós temos que ver é que a mulher foi por muito tempo impedida fora de casa. Historicamente, é um pouco assim que se dava, havia cursos em que ela (a mulher) era impedida muitas vezes de fazer e áreas em que não podia trabalhar. Quando a mulher começa a ser aceita, é só naquelas profissões que estão associadas ao ‘papel dela na sociedade’, que é como professora, enfermeira, costureira, nas fábricas de tecido enfim.  Mas isso existe até hoje, há essas áreas em que a mulher está mais concentrada, e não por opção consciente dela, mas por tradicionalmente haver essas questões associadas à mulher. Como se o fato dela, por exemplo, ser mãe levasse que ela naturalmente seja uma boa educadora, professora. Na enfermagem também, por ser vista como uma cuidadora, que se encarrega dos idosos, dos filhos. Então a gente vê que isso está muito associado a esse papel tradicional. É verdade que nos últimos tempos, nos últimos anos, nas últimas décadas, a mulher entrou em várias áreas em que ela não era bem aceita. Hoje ela já começa a ter seu espaço, mas isso ainda está muito presente.

O governo tem atuado de forma satisfatória para incentivar as mulheres a seguirem estas carreiras onde são minoria hoje?

Leis nãos adiantam nada se não são acompanhadas de uma mudança cultural. A gente sabe que em determinadas áreas as mulheres não são muito presentes, não adianta, sempre vai haver uma forma das mulheres serem preteridas. Então a mudança principal que deve existir é a mudança cultural. Com relação aos salários mais baixos, a mulher sempre teve o salário mais baixo que o do homem, cerca de 60% o valor do salário do homem na mesma área profissional. Outra questão importante é que a mulher, se entra em uma profissão ‘masculina’, essencialmente masculina, ela é mais cobrada, mais vigiada, vai estar mais vulnerável a preconceitos. Ela sabe que muitos estão olhando para ela e pensando ‘vamos ver se ela dá conta’, então a mulher tem que desdobrar, mostrar que ela é inclusive melhor que o homem para fazer aquele trabalho, porque igual não parece ser suficiente para ela ser respeitada.

Qual o papel e a importância dos movimentos sociais para melhorar as políticas públicas nesta área?

Movimentos sociais, como eu concebo, não são institucionalizados e raramente têm acesso à mídia, a não ser nos momentos de manifestações que trazem uma visibilidade maior. Eu considero esses movimentos fundamentais para a mudança de comportamento quanto a mulher na sociedade, e todas as conquistas que tivemos até hoje se devem a isso. As políticas públicas, em geral, não vêm porque o governante é bonzinho e resolve pensar que as mulheres merecem. Em geral, políticos são pressionados pelos movimentos sociais de determinada área para criar e promover políticas públicas. Isso acontece em relação a mulheres, negros, homossexuais, a todos esses ‘setores’ com menos direitos.

Como está esse cenário em Mato Grosso do Sul?

Essas relações desiguais entre homens e mulheres assumem características particulares dependendo da região, do estado, do país, enfim, de que lado você está no planeta. Isso vai depender também da força dos movimentos de mulheres também, ou seja, não é homogêneo. A gente sabe que Mato Grosso do Sul é uma região extremamente conservadora nesse sentido, o machismo aqui é muito forte. Aqui, as barreiras que as mulheres têm que vencer são muito maiores que São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo. O Estado está entre as regiões que mais têm casos de violência contra a mulher, com esses dados dá pra ver como existe um enorme conservadorismo. Precisamos de muito para avançar nessa questão.

Desde que a senhora iniciou suas pesquisas houve um avanços nos direitos da mulher?

Houve sim, apesar de isso ser um tipo de cultura disseminada em todas as classes sociais. Não é porque a pessoa tem diploma, porque tem títulos, que está isenta dessa cultura, que nós chamamos de falocrática. Aqui na universidade mesmo eu tive que lutar muito para ser tratada como uma professora igual a qualquer outro. Eu não sei se consegui, porque nós, mulheres, somos ainda vistas como de segunda categoria. Hoje está um pouco diferente, justamente por essa inserção que nós conseguimos ter, entre os próprios alunos e colegas professores. Mas durante muito tempo fui considerada ‘menos’ por ser mulher e também pelo meu tema de pesquisa, sempre voltado a esse tema. Eu cheguei a ouvir de colegas a pergunta ‘qual é a importância de se trabalhar com isso? Já que mulher sempre apanhou da mesma forma no mundo inteiro’. A própria implantação do Núcleo de Gêneros foi com muita dificuldade, porque tinha-se boicotes de tudo quanto era jeito. Nós conquistamos esse espaço e mesmo após a aposentadoria como professora, continuo sendo procurada para falar sobre isso, fazer orientação, co-orientação para alunos.

Há muita confusão entre os conceitos de grupos femininos e grupos feministas?

Tanto os conceitos da relação de gêneros quanto o conceito de feminismo tiveram uma banalização muito grande. Então, infelizmente você ouve muito pessoas, grupos, partidos políticos confundindo os debates. Há mulheres que se dizem feministas, mas nem sequer entendem o que isso quer dizer. Ser feminista implica em um conhecimento teórico, na defesa de determinadas bandeiras e entender o que significa a história por trás dessa luta. Teoricamente, eu adoto a definição de que o que difere o movimento feminino do movimento feminista é que as feministas propõem uma transformação radical da sociedade, e os grupos femininos, ou grupos de mulheres, lutam por questões pontuais, como foi a questão da conquista do voto, por exemplo. É como se fosse um rótulo que hoje dá um certo prestígio.

A falta de compreensão desses conceitos atrasa o avanço das conquistas da mulher na sociedade?

Sem dúvida prejudica, pois às vezes são colocadas posições que não tem nada a ver com a luta e acabam por desgastar o discurso. Certa vez, inclusive, cheguei a ouvir de uma aluna que não se dizia feminista, ‘se você não sabe do que está falando, você pode colocar posições que depõem contra o feminismo’, e isso é verdade.

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