Professor do curso de Fisioterapia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, UFMS, o fisioterapeuta Fernando Ferrari ministrou a oficina do projeto “Sinais que vem da rua: construindo redes e vivas e assistenciais em multidões em busca do comum”, durante o Encontro Regional Centro Oeste da Rede Unida, associação que reúne trabalhadores da saúde de todo o Brasil. A proposta do projeto, que já acontece no Rio de Janeiro, é aproximar os movimentos sociais do debate sobre a saúde. O evento, que aconteceu entre os dias 13 e 14 de novembro na Universidade Católica Dom Bosco, UCDB, é parte preparatória do 12º Congresso Nacional da Rede Unida, que ocorrerá em março de 2016 em Campo Grande.
Ferrari, do que se trata este conceito de saúde direcionada aos movimentos sociais?
A gente está apostando muito na questão da participação popular e muito em novas ferramentas de produção de saúde. Nós estamos falando de produção de saúde e não de tratamento de doenças. E a gente entende que para produzir saúde, a gente precisa considerar o conceito de saúde ampliada no sentindo de que ele não é só uma boa organização do sistema biológico, mas também o emocional, o psicológico, o cultural, o social, o lazer, trabalho, educação, informação, rede de apoio, família, o conjunto de amigos, a criatividade e a identidade. Tudo isso é determinante e condicionante de saúde pelo nosso olhar, pelos membros da Rede Unida. Então a gente está querendo trazer essas outras pessoas que estão fazendo esse trabalho para somar forças na organização do congresso. Além disso, dado o resultado da nossa oficina e do que a gente conversou e da força que isso tomou a ideia é que isso se fortaleça e apareça no congresso de uma forma bastante potente. As pessoas desses movimentos fazendo o inverso: transmitindo e construindo novas tecnologias para os profissionais e estudantes de saúde com novos jeitos de fazer saúde e de lidar com os diferentes grupos da população.
Quais grupos participaram da oficina?
Nós tivemos participação de estudantes, de professores e das diferentes profissões da saúde, gestores e trabalhadores da rede municipal e estadual de saúde, movimentos de teatro e rua, palhaços, grupos de defesa dos direitos dos negros, das mulheres, dos queimados, tivemos uma riqueza muito grande de participação. A gente pretende agora que isto se transforme numa rede e que a gente vá além das oficinas regionais que vão rodar o país, que a gente vá fazendo uma série de encontros aqui para construirmos a participação e programação desses grupos dentro do congresso.
Por que estes grupos necessitam de uma adaptação da saúde?
Porque eles tem singularidades, especificidades, culturas diferenciadas, especificidades biológicas diferenciadas, eles tem modos de viver que são singulares. A gente precisa tratar os diferentes de um modo diferente. Então essa é a ideia da equidade que esta posta na Saúde. Precisamos ouvi-los, precisamos de uma produção dialógica muito forte com eles para poder entender e aprender muito, construir um novo conhecimento a partir de uma postura dialógica entre o usuário e os profissionais de saúde.
Em Mato Grosso do Sul as notícias de violência contra as mulheres são recorrentes. O que esta oficina pode trazer em benefício desse grupo?
Além de uma potência na mudança de cultura e de um espaço de vocalização dessas mulheres organizadas, traz o fortalecimento da própria organização delas e também um espaço de transformação de cultura para os estudantes. A gente vê que às vezes essa violência é produzida também, por incrível que pareça, por profissionais da saúde. É só a gente ver alguns segmentos da corporação médica, o desserviço social que eles tem produzido ao país nesses últimos dias com discursos xenófobos, preconceituosos, machistas e homofóbicos. E essas pessoas estão nas nossas escolas. Esse profissional que é o profissional da vida tem saído dos cursos de saúde com essa visão. Então é essa transformação que a gente busca e a gente entende que esse é um processo longo, demorado, mas que a gente tem conseguido mudanças sim.
Mato Grosso do Sul é o segundo estado do Brasil com maior população indígena. Como estas ações podem ajudar este grupo no âmbito da saúde, que é precária para eles?
Colocando a questão deles na pauta como nós estamos fazendo no “Sinais que vem da rua”. Também estamos buscando uma participação do movimento indígena, com as lideranças e um jeito de além de dar muita visibilidade, trazer eles para dentro do congresso com uma participação protagonista. A ideia é que os protagonistas deixem de ser os acadêmicos e passem a ser as pessoas, os usuários do SUS. Então é de uma mudança, uma inversão da lógica de se fazer um congresso de saúde. A gente vai se colocar mais na posição de ouvinte, de absorver esse conhecimento tão rico que a gente desconsidera. Entendemos que essa é a maneira de combater, de erradicar esses preconceitos, essa relação de poder, essa relação verticalizada entre o profissional de saúde e o usuário, e horizontalizar essa relação.
A universidade está aberta aos movimentos sociais e a convivência com o conhecimento empírico desses grupos?
Desde o final da década de noventa, quando a gente conquistou o SUS, quando o movimento da reforma sanitária reorganizou e reorientou o movimento de saúde e conquistamos o artigo 196 da Constituição Federal, que diz que “saúde é direito de todos e dever do estado”, e construímos a lei 8080 que regulamenta o SUS e garante seus princípios de universalidade, cuidado, integralidade e participação social que a gente vem apostando na mudança da formação. A Rede Unida foi protagonista desse processo quando a gente conseguiu durante a década de 90 trabalhar nas mudanças das diretrizes curriculares para os cursos da saúde. Então as diretrizes curriculares nacionais para os cursos da saúde foram publicadas entre 2000 e 2002 e todas elas já reorientam para que as universidades, escolas, agências formadoras de profissionais da saúde se atentem a esses princípios e mudanças. Isso ainda é um pouco insipiente, isso tem força em alguns cursos e espaços dependendo dos atores que estão inseridos. Mas ainda encontra forte resistência em alguns núcleos mais conservadores das próprias universidades. Por incrível que pareça a gente tem um grande segmento de universidades públicas formando profissionais para atuarem no setor privado, o que é uma dicotomia a ser combatida e erradicada. Algumas categorias precisam atentar a isso de uma maneira mais forte que as outras.
Esta formação, como você colocou “conservadora”, pode influenciar quando este profissional atuar em um sistema de saúde, seja público ou privado, no atendimento a estes grupos?
Eu vou responder pedindo ajuda lá para o Paulo Freire. Eu aposto muito no poder da pedagogia e da formação. Eu sou um educador mais que um profissional da saúde, e o Paulo Freire dizia que a educação não muda o mundo, mas a educação transforma as pessoas que transformam o mundo. E é nessa lógica, de dar uma educação que signifique o olhar das pessoas para o mundo, para as pessoas diferentes em situação desprivilegiada e por ai vai.